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‘O câncer muda por completo de um dia para outro’, diz oncologista

Para Ricardo Alvarez, tratamento contra a doença poderá seguir o mesmo caminho feito com o HIV, com o uso de um coquetel de múltiplas drogas

 

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Médico analisa mamografia: no futuro, foco será perfil genético e não região do corpo onde a doença se desenvolve - shutterstock.com/Guschenkova

 

RIO — O oncologista argentino Ricardo Alvarez conduz ensaios clínicos para desenvolver novos tratamentos contra o câncer, o último estágio no processo de fabricação de uma droga. Nesta fase, a substância é ministrada a doentes. Alvarez foi professor-assistente da Universidade do Texas e hoje trabalha como principal pesquisador do Cancer Treatment Center of America, uma instituição médica e de pesquisa. Ele descreve o câncer como quem fala de um inimigo ardiloso, cuja natureza genética muda todo o tempo, de modo a driblar possíveis curas. No futuro, diz Alvarez, os oncologistas vão tratar a doença de acordo com seu perfil genético, e não com a região do corpo em que ela se desenvolve.

 

O senhor afirma que o câncer de mama é um conglomerado de muitas doenças diferentes. O que isso significa?

Digo isso porque o câncer muda o tempo inteiro, mesmo durante o tratamento. Falo do câncer de maneira geral, não apenas o de mama. O câncer é uma doença que surge quando os genes se expressam de maneira anormal. O que o torna tão delicado e difícil de detectar, tratar e curar é sua habilidade de rápida adaptação. Ele muda completamente de um dia para o outro, é um alvo perpetuamente em movimento. Às vezes, é muito difícil — e leva muito tempo — para o oncologista perceber que um tumor que retornou depois de tratado já não é o mesmo de três anos antes. Pode parecer a mesma doença, mas sua natureza é completamente diferente. Por isso, as maiores inovações surgem no sentido de descobrir como rastrear essas mudanças genéticas que os tumores sofrem com o passar do tempo.

 

O tratamento também deve mudar ao longo do tempo?

Sim. A ocorrência dessas mudanças indica que o câncer está progredindo, e que o tratamento oferecido não está funcionando. Se o câncer se adapta, é preciso que o tratamento faça o mesmo.

 

O senhor diz que é preciso pensar em tratamentos específicos para cada paciente. Como isso é possível?

Essa é a promessa da medicina personalizada. Nossa ambição é permitir que cada paciente receba um tratamento diferente, adequado para o tipo de câncer que enfrenta naquele momento. Hoje, já temos meios de fazer isso pelo sequenciamento genético. A partir de uma amostra de sangue, podemos detectar anormalidades genéticas e, muitas vezes, determinar qual a melhor droga para lidar com elas. É o que chamamos de terapia alvo, algo já feito, mas ainda com bastante potencial inexplorado. Estamos nos encaminhando para pensar o câncer de uma maneira nova — em lugar de classificá-lo segundo o local onde ele se desenvolveu (mama, próstata ou outra região), vamos classificá-lo segundo sua composição genética.

 

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Ricardo Alvarez, médico e pesquisador do Cancer Treatment of America - Divulgação/Catrina Maxwell

 

Como isso muda o tratamento?

Na prática, permite que usemos diferentes drogas para diferentes tipos de tumores, segundo a genética da doença. Hoje, posso tratar pacientes que sofrem com câncer de mama metastático com uma droga projetada para o tratamento de melanoma. Porque o câncer dessa paciente expressa genes de melanoma, vulneráveis a esse medicamento. Há pacientes de câncer de pulmão que, frequentemente, expressam genes mais comumente encontrados em câncer de mama. E usamos drogas pensadas para câncer de mama para tratar câncer de pulmão.

 

O senhor pesquisa o desenvolvimento de novas drogas e tratamentos. Qual o futuro da oncologia?

A maneira como hoje enxergamos o tratamento do câncer é revolucionária. Nos últimos quatro anos, experimentamos avanços mais dramáticos do que nos 30 anteriores. Isso acontece porque temos instrumentos para entender quais genes são mais sensíveis aos medicamentos de que dispomos. Talvez o futuro da oncologia esteja na imunoterapia, uma área que começou a se desenvolver no início do século XX, mas evoluiu pouco nos últimos 60 anos. Já temos promessas de vacina para câncer de pulmão e de pele, por exemplo. Mas acho que o tratamento de câncer vai seguir caminho semelhante ao do HIV. Quando começamos a tratar pacientes com HIV, usávamos um antirretroviral. Percebemos que o melhor era usar uma combinação deles, cada um explorando uma vulnerabilidade do vírus. Isso assumiu a forma de um coquetel de múltiplas drogas. Faremos o mesmo com o câncer.

 

Vamos combinar diferentes estratégias para tratar um tumor?

Vamos combinar múltiplos agentes, com diferentes mecanismos de ação. Envolver cinco tratamentos para cuidar de uma só pessoa. Acho que é esse o caminho. Mas novamente: o mais fascinante em relação ao câncer é sua habilidade de mudar constantemente. Essa é nossa melhor aposta por ora.

 

Quão longe estamos desse futuro?

Não muito. Nos próximos cinco anos, a maioria dos nossos tratamentos vai ser ministrada via oral e envolver terapia alvo.

 

O senhor trabalha no desenvolvimento de novos tratamentos. O cientistas se queixam de que faltam pessoas dispostas a participar desses testes. Por que isso acontece?

A quantidade de ensaios clínicos está relacionada com o nível de sofisticação do sistema de saúde. Nos EUA, os centros de tratamento mais renomados participam do desenvolvimento de pesquisas. As pessoas entendem que, ao participar de um ensaio clínico, ajudam a si mesmas e aos outros. Na América Latina, as pessoas ainda acham que participar vai colocá-las em risco. As drogas testadas são seguras e foram estudadas por décadas. E isso permite o acesso a tratamentos inovadores. Mas não adianta testar no final do tratamento. Elas precisam ser usadas ainda no início, esse é o paradigma que precisamos mudar.

 

Fonte: Site | O Globo

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