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Agrotóxicos, os vilões da saúde

  

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Discussão sobre os malefícios causados por estes produtos ganha cada vez mais espaço no país

 Discussão sobre os malefícios causados por estes produtos ganha cada vez mais espaço no país

Por Natália Mancini

Não é de hoje que os agrotóxicos geram discussões polêmicas entre população, profissionais da saúde, ruralistas e órgãos do governo. E aí vem a pergunta: usar pesticidas é realmente necessário?

 De acordo com o coordenador geral substituto de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Bruno Breitenbach, os agrotóxicos são ferramentas usadas para o controle de pragas e para tentar alcançar o equilíbrio nas plantações brasileiras.

Eles podem ser o resultado de reações químicas, físicas ou biológicas e são utilizados no mundo todo na produção agrícola para aumentar a produtividade de alimentos.

Esse tipo de substância surgiu na história da agricultura por volta de 1950 com a Revolução Verde nos Estados Unidos. A intenção era modernizar e aumentar a eficiência nesse campo. Isso beneficiaria o consumidor, que teria acesso a uma diversidade maior de alimentos, em um menor tempo e por um preço mais acessível.

No Brasil, essa revolução chegou na década de 1960. “Seu uso é essencial na agricultura brasileira onde as altas médias de umidade e temperatura, aliados aos cultivos extensivos, favorecem a multiplicação e disseminação de pragas”, diz Bruno.

De acordo com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), os agrotóxicos mais utilizados são aqueles à base de glifosato e seus sais. Outros ingredientes como 2,4-D, mancozebe, acefato, dicloreto de paraquate e oxicloreto de cobre também são comuns.

Mas para que o uso de um agrotóxico seja liberado, é preciso que MAPA, IBAMA e Anvisa façam uma avaliação simultânea. Após os três órgãos terem aprovado o registro, o responsável deve cumprir às exigências estabelecidas pelos estados e pelo Distrito Federal sobre o uso, a produção, o consumo, o comércio e o armazenamento. O que não necessariamente está sendo respeitado pelos agricultores.

Em maio de 2018 a Anvisa liberou um estudo mostrando os alimentos que continham maior quantidade de agrotóxicos, e o pimentão saiu disparado em primeiro. Para se ter uma ideia, 91,8% das amostras desse legume apresentaram agroquímicos acima do permitido.

Além do pimentão, também foram encontradas quantidades excessivas de agrotóxicos em alimentos como uva, pepino e morango.

Malefícios para a saúde

 Em nota enviada para a Abrale, o Ibama declara que “apesar de importantes para o controle de pragas e doenças de plantas cultivadas, os agrotóxicos podem ser perigosos para o meio ambiente e para a saúde humana”.

O número de empresas que trabalham com o desenvolvimento desse tipo de produto está crescendo. Por um outro lado, ainda não há alternativas, como herbicidas biológicos, que causem menos danos tanto para nós quanto para o meio ambiente.

Juliana Nabarrete, nutricionista do hospital Albert Einstein e membro do Comitê de Nutrição da Abrale, explica que os agrotóxicos podem ter dois tipos de mecanismo: os sistêmicos, que atuam no interior das folhas e polpas, entrando nelas, e os de contato, que agem, principalmente, nas partes externas do vegetal.

“Os procedimentos de higienização, como deixar o alimento em água com hipoclorito de sódio, lavá-los em água corrente e retirar cascas e folhas externas contribuem para redução dos resíduos de agrotóxicos presentes no exterior, porém, são incapazes de eliminar aqueles que estão no interior do alimento”, informa a nutricionista.

Os efeitos dos agrotóxicos também irão depender do tipo de produto utilizado. É o que diz o Dr. Felipe Ades, oncologista no Hospital Oswaldo Cruz.

“Cada substância agrotóxica pode ter um efeito diferente no corpo humano e pouco se sabe sobre o seu real efeito, porque não se fazem estudos aplicando substâncias tóxicas em pessoas. A maioria dos dados sobre o efeito nas células vêm de experimentos em laboratório com animais e por meio de observação do que acontece com as pessoas, sempre avaliando seus hábitos”, conta o oncologista.

Ainda de acordo com o médico, para ter a certeza sobre os efeitos dos agrotóxicos no organismo dos humanos seria necessário fazer um estudo com dois grandes grupos de milhares de pessoas com hábitos alimentares e de vida semelhantes.

“A única exceção seria que um grupo consumiria alimentos cultivados com agrotóxicos e outro sem agrotóxico. Porém, obviamente não se pode fazer esse tipo de pesquisa”, diz.

Existem alguns pesticidas à base de arsênico que são comprovadamente cancerígenos e têm seu uso proibido. Outros podem ter efeitos tóxicos agudos quando ingeridos em grande quantidade ou também podem até gerar agravos à saúde humana.

Se a pessoa for exposta por muito tempo a essas substâncias, pode apresentar alterações celulares, passando a fazer parte do grupo dos mais propensos a desenvolver determinados tipos de câncer.

“O maior estudo desse tipo avaliou agricultores que pulverizavam glifosato, um tipo de agrotóxico. Estas pessoas receberam uma carga da substância muitas vezes maior do que a carga das pessoas que se alimentam. Neste estudo foi visto um pequeno aumento de linfoma de Hodgkin nestes trabalhadores”, comenta Dr. Felipe.

Além do linfoma de Hodgkin, os agrotóxicos também podem causar: problemas neurológicos, dificuldades respiratórias, irritações na pele, manifestações gastrointestinais, alterações no sistema reprodutor masculino e feminino, além de cânceres como no cérebro, mama, esôfago, de pele e sistemas digestivo e de reprodução.

Apesar de ainda existir a dúvida se os agrotóxicos são isoladamente os responsáveis por essas doenças, algumas pessoas optam por evitar ou até mesmo tirar totalmente essas substâncias do seu dia a dia.

Nesse caso, Juliana Nabarrete comenta que o ideal seria seguir as orientações de higienização, além das opções dos alimentos orgânicos. “Ao comprar os alimentos, deve-se dar preferência aos da ‘época’, que costumam receber uma carga menor de agrotóxicos”, fala a nutricionista.

E como a lei vê os agrotóxicos?

 Em julho de 2018, foi aprovado por uma Comissão Especial o Projeto de Lei 6299/02, conhecido como PL do Veneno.

O projeto pretende diminuir a burocracia, alterar a fiscalização e reduzir o tempo para registrar novos agrotóxicos. Dentre as medidas, está a de mudar o nome “agrotóxico” para “produtos fitossanitários”, já que entendem a primeira opção como pejorativa.

Movimentos que são contra o projeto alegam que ele está tentando mascarar os malefícios do produto, colocando a produtividade acima da saúde humana e do meio ambiente.

Quando questionados sobre o projeto e se as mudanças sugeridas já estavam sendo adotadas, Ibama e Anvisa responderam que aplicam a lei válida atualmente, a Lei n° 7.802/89 e suas normas complementares.

Sobre a mesma questão, o Ministério da Agricultura optou por não responder a respeito de um projeto de lei que tramita no poder legislativo. De acordo com a Câmara dos Deputados, o projeto está pronto para a pauta do Plenário.

A PL do Veneno propõe ainda que a liberação de um agrotóxico dependerá de uma avaliação de risco. Também perguntamos como acontecerá essa avaliação, com a nova medida, mas MAPA e Ibama optaram por não responder.

Já a Anvisa disse que atualmente realiza uma avaliação de risco prevista legalmente desde a década de 90. “Nessa avaliação, os valores encontrados nos estudos de resíduos, que simulam a aplicação do agrotóxico na lavoura, devem ser confrontados com os parâmetros de segurança toxicológicos obtidos a partir de estudos experimentais, considerando também a realidade de consumo dos alimentos da população brasileira”.

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