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Conversando com uma criança sobre o câncer

  

Pai E Filho
Na doença de uma criança, as dificuldades são maiores pela responsabilidade de continuidade de vida assumida pelos pais

Na doença de uma criança, as dificuldades são maiores pela responsabilidade de continuidade de vida assumida pelos pais

Por Maria Lúcia Martins, psicóloga do Hospital das Clínicas de São Paulo

O impacto de receber um diagnóstico difícil como o de câncer inevitavelmente gera uma crise no núcleo familiar, seja o paciente um dos genitores ou um filho. É um fato que tende a desestruturar toda a rotina da família.

Quando se trata de uma criança, as dificuldades se potencializam, pois ferem a concepção de continuidade da vida, em que os pais são os responsáveis pela preservação da vida de seus filhos, que, por sua vez, são seres em formação.

Para falar com a criança sobre o diagnóstico e o tratamento do câncer é preciso uma boa dose de honestidade e clareza, o que preservará o vínculo de confiança que ela deposita nos pais e na equipe que trata dela.

É preciso ver a criança como um ser capaz de enfrentar a situação. Excesso de piedade a fará sentir que não acreditam que ela é capaz, desencorajando-a a aderir ao tratamento e consequentemente tornando-o mais sofrido. A maneira como se lida com o primeiro impacto vai se revelar muito importante na forma de encarar a doença. A simples palavra câncer ainda está fortemente ligada à ideia de morte, não importa quanto tenham evoluído as medicações e tratamentos.

A postura do médico vai marcar bastante as reações possíveis do paciente e da família. Ele tanto pode passar uma visão pessimista como encorajar o paciente a enfrentar a situação da melhor forma possível. É importante que, nesse momento, suas palavras sejam honestidade em relação à gravidade, mas também esperançosas quanto aos novos tratamentos.

Da parte dos pacientes, as reações são variadas – e é preciso saber lidar com elas. Num extremo, há negação: “não, isso não pode estar acontecendo comigo”. No outro, um otimismo arriscado. A pessoa nega a importância da doença, enfrenta a quimioterapia e tudo mais “numa boa”, sem tomar os devidos cuidados, negligenciando o processo interno (físico e psicológico) pelo qual está passando. Não se considera doente.

No caso da criança, essa comunicação, além de honesta, precisa ser transmitida numa linguagem fácil e adaptada à sua idade.

É muito importante poder ouvir os questionamentos da criança. Um bom caminho é perguntar o que ela pensa sobre o que está sendo dito. O mundo fantasioso infantil faz com que ela busque uma interpretação própria para conferir um sentido aos fatos confusos que está vivendo, e podem apreendê-los de forma equivocada.

Esse diálogo possivelmente necessitará ser repetido diversas vezes, de formas diferentes. Pois, devido ao nível de stress, as informações não são assimiladas completamente de uma vez, mas digeridas aos poucos.

Nessa fase, vão surgir reações como ansiedade, medo, raiva ou depressão, de forma mais acentuada ou descontextualizada em relação ao padrão da criança. São sentimentos passageiros que devem ser superados com o apoio familiar e o suporte da equipe profissional que acompanha a criança.  As pessoas que a cercam devem ser capazes de acolher as manifestações de tristeza e raiva, deixando que a criança ponha seus sentimentos para fora.

Essas manifestações são importantes para que ela chegue a um ponto de equilíbrio. Os pais são para a criança o seu porto seguro, a certeza de que se tem alguém sempre ao lado.

Mas também é importante estimular a volta ao equilíbrio, restaurando os limites, estimulando a criança a realizar tarefas possíveis como buscar sua própria água, trocar de roupa, tomar banho sozinha, sentar à mesa com os outros. O paciente infantil não deve ser infantilizado.

É comum a criança perceber o sofrimento familiar e se sentir culpada pela tristeza dos pais. Verbalizar a sua preocupação com ela, de uma forma amorosa, reafirma a certeza de que os pais estarão sempre ao seu lado.

Um apoio psicológico auxilia durante o processo do tratamento. Por meio de atividades como brincar e desenhar, a criança conta sua história e revela a compreensão da realidade e seus recursos de elaboração e superação, possibilitando um processo menos traumático.

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