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A perda de paladar acontece no tratamento do câncer, mas ela não pode comprometer a alimentação do paciente

A perda de paladar acontece no tratamento do câncer, mas ela não pode comprometer a alimentação do paciente

Aos 52 anos, o engenheiro Marco Suman gosta de dizer que deve sua vida à obstinação. Há pouco mais de uma década, em 2006, começou a apresentar os sintomas de uma leucemia linfoide crônica, ou LLC tipo B. Passou por momentos realmente difíceis, principalmente porque demorou cerca de dois anos para receber o diagnóstico preciso, já pesando 50 kg, com o corpo debilitado e repleto de feridas e ínguas, duas das quais retiradas com cirurgia. Após o início do tratamento, os efeitos colaterais tornaram sua rotina ainda mais complicada, não apenas por vomitar boa parte do que comia, mas também por apresentar um quadro bastante comum entre pessoas submetidas à quimioterapia e à radioterapia: a perda de paladar – no caso dele, também de olfato. “Hoje estou bem, nunca mais vomitei e recuperei meu paladar e olfato. Devo isso a uma orientação do médico logo após o diagnóstico: ‘Tomar muita água e se alimentar’. Segui com muita determinação”, conta Suman, com 80 kg e orgulhoso por poder contar sua história.

A perda de paladar, ou disgeusia, como a medicina a nomeia, acomete pelo menos metade das pessoas que passam por quimioterapia e radioterapia de cabeça e pescoço, informa Eloisa Massaine Moulatlet, nutricionista do Comitê de Nutrição da ABRALE. Segundo ela, entre as alterações mais frequentes estão a sensação de sabor diferente daquela experimentada antes do tratamento, a falta acentuada de paladar ou a impressão de que tudo tem o mesmo gosto. Na prática, o amargo, o doce e o salgado mudam. Algumas pessoas também podem sentir na boca um gosto “metálico” ou “químico”, sobretudo ao ingerir alimentos proteicos, como a carne vermelha. A perda de paladar é um efeito colateral que se manifesta com o início do tratamento contra o câncer e tende a cessar semanas depois de finalizada a abordagem terapêutica.

Por que o mal acontece?

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a quimioterapia e a radioterapia têm ação tóxica sobre o trato gastrointestinal, com o surgimento de efeitos colaterais como a perda de paladar (disgeusia) e também anorexia, náuseas, vômitos, mucosite, diarreia e assim por diante. “Na prática, a ingestão de alimentos é frequentemente insatisfatória, o que requer orientação dietética e prescrição de suplementos por parte de profissionais aptos a fazer isso”, constata o Consenso Nacional de Nutrição Oncológica do Inca. Além da influência direta do tratamento do câncer, as alterações do paladar podem resultar dos próprios efeitos colaterais, incluindo boca seca, infecções bucais e de gengiva, problemas dentários, náuseas e vômitos, assim como de cirurgias de nariz, boca e garganta.

Há estratégias para lidar com a perda do paladar

“Não é fácil. É preciso ser insistente. Trabalhar a mente, ter a consciência de que é uma situação passageira e viver um minuto de cada vez. Comia porque sabia que precisava comer, para conseguir me manter forte e sobreviver, mesmo sem cheiro ou gosto, e vomitando várias vezes por dia. Pensei em desistir algumas vezes, mas a cada intervalo entre refeições refletia e voltava a me concentrar em meu objetivo”, conta Marco Suma. “Hoje não me arrependo. Não estaria dando este depoimento se tivesse deixado de comer e beber água”.

Condimentos naturais, pratos coloridos e bonitos de se ver ajudam muito

A nutricionista Eloisa Moulatlet reconhece as dificuldades, mas diz que a consciência de que o prejuízo de parar de comer é pior do que os efeitos da alteração de paladar funciona como uma poderosa aliada. “É importante a pessoa se lembrar do que aprecia e escolher se alimentar de pratos que sabe que gosta, mesmo que não tenha as mesmas sensações. Costumo indicar o uso de condimentos naturais que reforcem sabor e aroma, como orégano, coentro, cheiro verde, cebolinha, alho-poró, alecrim e manjericão”, orienta. “Vale trabalhar com outros sentidos. Fazer pratos coloridos e agradáveis de se ver. A temperatura também pode influenciar na intensidade das alterações de paladar. O ideal é evitar extremos, nada muito quente, nem gelado. Por fim, enxaguar a boca e fazer bochecho com chá de camomila ajuda a tirar o amargor e o metálico”. Mas, ela reforça, cada pessoa reage de um modo ao tratamento, por isso é importante buscar um acompanhamento nutricional com atendimento individualizado.

 

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