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Luta em família gera união

  

Imagem Familia
Quando mais de uma pessoa na mesma casa é atingida pela mesma doença, aprendemos que a união realmente faz a força durante a luta

Quando mais de uma pessoa na mesma casa é atingida pela mesma doença, aprendemos que a união realmente faz a força durante a luta

Há doenças, como o câncer, que atacam muitas vezes sem razão, “do nada”, atingindo até mesmo as pessoas mais saudáveis, sem qualquer explicação. Mas quando a causa é algo genético, corre-se um risco: o de duas pessoas numa mesma família serem afetadas pelo mesmo mal.

Uma infeliz coincidência, que geralmente não tem como ser evitada e que, dependendo da atitude das pessoas, pode seguir por dois caminhos: mexer com a estrutura familiar e abalá-la, ou, por toda a força que a situação exige, unir essa família como nunca para que a doença seja enfrentada e vencida. O segundo caminho foi o escolhido pelas duas famílias que entrevistamos. Uma, de Belo Horizonte, se viu com dois irmãos gêmeos pacientes de leucemia linfoide aguda. Outra, do Rio de Janeiro, descobriu no filho a mesma PTI carregada pelo pai. Aqui, as mães dessas duas famílias contam sua história e dão uma lição de união e enfrentamento da doença pelo amor.

A luta do pai e do filho

A PTI de um surgiu no outro antes mesmo do primeiro ano de vida. E vem unindo ainda mais os dois.

Carlos Igor da Gama Peixoto mal se lembrava do episódio em que, aos nove anos de idade, machucou o pé, foi levado pela mãe aos hospital pois não parava de sangrar e lá fez alguns exames que indicaram que ele tinha PTI (púrpura trombocitopênica idiopática), uma doença do sangue caracterizada pela brusca diminuição do número das plaquetas e a consequente não-cicatrização. Depois disso, se machucou uma outra vez ainda criança e precisou ficar internado, mas a baixa gravidade o fez se esquecer que tinha a doença. Tanto que, apenas anos depois de se casar com Débora, quando foram fazer exames para tentar engravidar, em 2003, foi que ele contou a ela – e ao médico – que tinha PTI. “Logo perguntamos se poderia ser passada de pai para filho, mas na época garantiram que isso só ocorreria se eu, a mãe, tivesse a doença”, conta Débora, que demorou quatro anos para engravidar de Igor. O bebê nasceu bem e nenhum exame apontou anormalidade, até que, quando tinha 11 meses, estava engatinhando, caiu e bateu o dentinho que começou a sangrar. “Começou e não parou mais, lembro que ele caiu por volta das 12h e às 7h da noite, ainda sangrava. Então, achei melhor levá-lo para o hospital”, conta a mãe. O hemograma apontou que as plaquetas estavam muito baixas, então o médico suspeitou de alguma doença do sangue, e a PTI do pai foi revelada. “Quando foi confirmado que era algo hereditário, o Carlos se culpou muito, chorou, se sentiu responsável pelo mal do filho.” Ao mesmo tempo, como não foi muito afetado pela doença, o pai se espantou ao ouvir o médico falando de todos os cuidados que seria preciso ter com o filho e que ele nunca tinha seguido. “Os dois são muito grudados, acredito que ter isso em comum os uniu ainda mais e transformou o Igor em um menino que respeita muito o pai, obedece, segue à risca as instruções que damos.”

Segundo Débora, o medo do começo, de que ele podia não passar dos cinco anos de idade, foi perdendo força graças à personalidade mais calma e obediente do filho, que poucas vezes teve episódios graves relacionados à doença. No mais difícil deles, quando estava com oito anos, uma brincadeira na escola (que ele frequenta desde muito novinho) fez com que um vaso do estômago estourasse, causando hemorragia interna. “Ele foi internado às pressas, suas plaquetas chegaram a cair para 1 mil e, enquanto tentavam fazer subir, teve uma parada cardíaca. Naquele momento eu, que sempre agradeci por não ter tido problemas graves nem com meu marido, nem com meu filho, achei que poderia perdê-lo.”

Igor foi ressuscitado pela equipe, três horas depois já estava bem, e nunca mais passou por nenhum procedimento de risco. “Quando um dente sangra ou corta o joelho, ele mesmo já sabe, toma o remédio, faz a compressa e se cuida até passar.” Já o pai, que na maior parte da vida nem ligou para a doença, agora, aos 39 anos, começou a sentir dores em alguns ossos, como das pernas e dos cotovelos, sintomas da doença. “Já aconteceu de pai e filho sangrarem ao mesmo tempo e eu precisar ir com os dois para o Hemo-Rio, que fica a três horas de viagem da nossa casa. Mas a força que temos todos juntos é maior que qualquer dificuldade”, conta Débora, que hoje também é mãe de Yuri, de um ano e meio, que nunca apresentou sintomas da PTI.

“Também fazemos o acompanhamento com ele e, agora que sei da doença, fico bem mais atenta aos roxinhos na pele, que podem não ser apenas de um tombo.” Dedicada a cuidar dos filhos e do marido, Débora deixa um conselho para as famílias que se encontram em situação parecida: “O melhor é aprender a lidar, ainda que na raça, e olhar sempre para o lado positivo da situação. No meu caso, a PTI uniu nossa família, despertou meu marido para mais cuidados e transformou meu filho em um menino lindo, obediente e cheio de vida!”.

Dois filhos, uma luta

Primeiro a LLA surgiu em um dos irmãos. Depois, acometeu o outro.

O pequeno Jefferson tinha dois anos quando uma consulta de rotina revelou algo a mais. Era janeiro de 2013, quando os exames mostraram o baço aumentado e o hemograma rapidamente solicitado apontou plaquetas em 106 mil e leucócitos em 18 mil. “A médica falou que a notícia não era boa, que poderia ser um câncer infantil”, conta a mãe, Silmara da Silva Mendes, que foi encaminhada com o pequeno para a Santa Casa de Belo Horizonte, onde um mielograma confirmou o diagnóstico de leucemia linfoide aguda. Seu filho foi imediatamente internado para dar início ao tratamento. Logo de cara, uma preocupação atingiu Silmara e seu esposo, Cosme: Matheus, o irmão gêmeo de Jefferson, teria ou poderia ter a mesma doença? Os exames feitos em Matheus mostraram que não, mas, por precaução, enquanto o irmão fazia o tratamento, ele passou a ser acompanhado, fazendo hemograma a cada três meses, e os resultados eram sempre ótimos. Até que, em julho de 2014, quando Jefferson já estava na fase de manutenção, Matheus reclamou de cansaço e quis se deitar. Como teve febre, a mãe o levou ao hospital, e no primeiro atendimento já foi detectado o baço alterado. “Naquele momento entrei em desespero, não conseguia nem falar com o médico, só chorava. Um filme estava sendo rodado novamente na minha cabeça, eu não queria acreditar”, lembra Silmara.

Quando o médico soube do histórico do irmão gêmeo de Matheus, o hemograma foi colhido imediatamente, e os resultados se mostraram ainda mais preocupantes: plaquetas em 36 mil e mais de 20 mil leucócitos. Ele foi internado com urgência, tinha risco de hemorragia interna.

Logo o mielograma confirmou o diagnóstico: a mesma LLA já enfrentada pelo irmão. A partir de então, a luta da mãe Silmara literalmente duplicou. Sessões de quimio, idas ao médico, exames para acompanhamento, cuidados em casa com a alimentação e os riscos de contaminação. “No começo, fui atingida por uma depressão muito forte, mas logo vi que me entregar a ela só piorava a situação. Então retomei as minhas forças e a fé em Deus e parti para a luta. Hoje sei que tenho muito a agradecer. Tanto pela vidinha deles, que são dois anjos maravilhosos, quanto pelo tratamento, todo feito pelo SUS e com muito carinho da equipe médica.” Silmara conta que tudo o que ocorreu foi encarado de forma muito natural pelo Matheus. “Ele já tinha visto o processo do irmão, então na cabecinha dele achava normal estar passando também por cada etapa, de perder cabelo, passar mal, ficar inchado etc.” Por causa da imunidade baixa, os irmãos não podem fazer os programas básicos de outras crianças, como ir ao parque ou ao cinema, e é o carinho e cuidado da mãe que os faz ter experiências divertidas. “Fazemos piquenique no meio da sala, brincamos de mímica, vemos filme todos juntos no sofá, oferecemos a eles pratos com legumes em formato de bichinhos. Nos unimos muito mais como família depois disso tudo, e hoje qualquer sorriso no rosto deles faz todo e qualquer sacrifício valer a pena!” Neste ano, os dois foram liberados para ir à escola, mas seguem com as sessões de quimioterapia para manutenção e os exames, que têm revelado um quadro muito positivo para os dois meninos.

“Tenho plena convicção de que ambos já foram curados e de que isso tudo vai passar. Temos mais alguns anos de luta e não vamos esmorecer. Mas, quando acabar, sei que seremos uma família comum, serei uma mãe comum, não uma guerreira ou batalhadora, como me chamam. O Jefferson e o Matheus são os melhores presentes que Deus me deu.”

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