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Conteúdo gratuito para pacientes de câncer e doenças do sangue, e seus familiares!

O câncer no SUS

Imagem Sus
Como fazer o tratamento no sistema único de saúde e que panorama o paciente vai encontrar

Como fazer o tratamento no sistema único de saúde e que panorama o paciente vai encontrar

Receber o diagnóstico de um câncer não é fácil. O chão desaparece e um turbilhão de ideias confunde o pensamento. Diante da confirmação do médico, é preciso determinação para enfrentar a doença e lutar pela vida. Nem sempre, porém, seu plano de saúde é suficiente para arcar com as despesas. Isso se você tiver um convênio médico…Nessa hora, a opção é o SUS (Sistema Único de Saúde) e muitos se perguntam se é possível, afinal, tratar cânceres do sangue na rede pública. A resposta é sim, e sem nenhum custo, tudo é gratuito.

Na verdade, o mais difícil na rede pública ainda é obter o diagnóstico. “A acurácia dos profissionais para fazer o rastreamento do câncer continua sendo um problema no SUS, assim como a oferta de meios diagnósticos é muitas vezes limitada. Mas, uma vez obtido o diagnóstico, o tratamento é de excelência”, garante Francies Regyanne Oliveira, gerente administrativa do Instituto de Responsabilidade Social do Hospital Sírio-Libanês.

Existem várias portas de entrada para o SUS. A principal delas, e preferencial, é a Unidade Básica de Saúde (UBS), que cuida do atendimento preventivo da população e realiza exames básicos. Diante de qualquer suspeita, o médico da UBS pode encaminhar seu paciente para um Ambulatório de Especialidades, para realização de outros exames e uma investigação mais aprofundada. Aqui o paciente não fica na fila comum e, sim, em uma fila regulada por um médico, com atendimento prioritário para suspeitas de câncer.

Confirmado o diagnóstico, o SUS tem 60 dias para o início do tratamento em centros de tratamento oncológico. “São hospitais de referência, muitos deles com equipes de pesquisa. Com o diagnóstico, normalmente o tratamento começa bem antes do prazo de 60 dias”, diz Francies.

É muito comum também pessoas que obtêm o diagnóstico (ou têm uma suspeita) de câncer na rede privada procurarem o SUS, porque o convênio não cobre determinados procedimentos ou recusa um ou outro tratamento. O caminho tem que ser o mesmo. Levar os exames para uma Unidade Básica de Saúde e de lá ser encaminhado para o Ambulatório de Especialidades. Não adianta ir direto para o hospital. “A diferença nesse caso é que a pessoa pula a etapa dos exames. Ela apenas anexa os exames da rede privada no processo administrativo da rede pública”, esclarece Francies.

TODO O TRATAMENTO DE CÂNCER PELO SUS É GRATUITO

O paciente não deve pagar por absolutamente nada para se tratar na rede pública. E tem o direito de receber atendimento vitalício com exames e medicamentos pagos. Se tiver qualquer problema de atendimento, vale a pena reivindicar os direitos, nos diferentes níveis. Comece pela direção da UBS ou do Ambulatório de Especialidades. Preencha um formulário com a sua queixa. Se não der certo, procure a Ouvidoria do SUS, que precisa dar uma resposta em cinco dias. Se ainda assim as coisas continuarem ruins, existem os Conselhos Municipais de Saúde. Em última instância, pode-se entrar com uma ação contra o Estado.

“Em casos de câncer, é mais difícil chegar aos tribunais. Mas não existe essa história de ‘não temos previsão de atendimento’ para pacientes com suspeita de câncer ou, pior, já diagnosticado com câncer. As pessoas precisam fazer valer os seus direitos e não se acomodar diante de problemas no atendimento”.

Nós procuramos alguns pacientes que trataram o câncer no SUS, com sucesso. E eles nos contam as suas histórias.

“OS MÉDICOS DIZIAM QUE EU NÃO TINHA NADA”

Neuza Rodrigues de Ávila, 64 anos, tem linfoma não-Hodgkin, e enfrentou dificuldades especialmente na fase do diagnóstico

Recebi diagnóstico de micose fungoide (LNH), em 2009. Morava em Itu, no interior de São Paulo. Foi bem complicado. Passei pelo médico particular, mas, como não teria condição de fazer o tratamento pagando, ele me encaminhou para a PUC de Campinas (SP). Teria de fazer quatro meses de fototerapia. Durante dois meses, tudo correu bem. Mas, quando meu médico foi substituído, comecei a ter problemas. Cortaram meu tratamento. Eu tentei conversar, cheguei a retomá-lo, mas não havia entendimento, cheguei a ser acusada de estar passeando na PUC, tomando banho para me bronzear. Fui para a auditoria. Resultado, passei mal e uma amiga que mora nos Estados Unidos me convenceu de ir para lá. Consegui dinheiro com a família e fui morar nos EUA. Fiz fototerapia e fiquei sem sintomas por três anos. Mas a micose fungoide é chata, vai e volta. No Brasil, pedi novamente o tratamento pelo SUS. Fui boicotada. Tentei a Santa Casa, me disseram que eu não tinha nada. Acabei pagando uma consulta com um hematologista e fiz novos exames. Levei na USP. Ouvi de novo: ‘A senhora não tem nada’. ‘Como não tenho?’. No fim, recebi uma fototerapia muito agressiva, que queimou minhas costas. Não me disseram que tinha de tomar um comprimido. Ainda com o resultado dos exames, voltei no particular. ‘A senhora pode pagar?’. Como não podia, o médico me encaminhou para o Hospital São Paulo. Enfim, tive contato com médicos excelentes. Me explicaram do que se tratava e o que precisaria ser feito. É uma doença que fica a vida toda. Ficou claro que eu tinha que fazer o tratamento, mas me explicaram que realmente não adiantava fazer fototerapia. E como nem tudo é perfeito, vira e mexe faltava material, coisas simples como gaze. Hoje estou melhor, se precisar voltar a me tratar, vou para o Hospital São Paulo.

 

“TINHA QUE FICAR ATENTO AOS AGENDAMENTOS E NUNCA FALTAR EM CONSULTAS E EXAMES”

Alex Ferreira da Silva, 38 anos, tem linfoma de Hodgkin. Diz que é preciso ter paciência na rede pública – mas dá tudo certo!

Minha primeira consulta na Oncologia ocorreu no Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, via SUS, em maio de 2016. Obtive o diagnóstico de linfoma de Hodgkin. Meu caso foi difuso, fiquei entre o Hodgkin e o não-Hodgkin. O A.C. Camargo é particular, mas atende pelo SUS moradores da capital, que são encaminhados pela Secretaria de Saúde. O caminho é a UBS (Unidade Básica de Saúde). Não há como fazer agendamento indo direto ao hospital. As vagas são difíceis mesmo, há muita demanda. Como estava tendo dificuldade com a UBS próxima de casa, procurei uma AMA (Assistência Médica Ambulatorial) de outro bairro. Fiquei contente com o meu tratamento. Recebi atendimento igualitário. Claro que, mesmo estando em um ótimo hospital, precisei ter calma. Existem muitos pacientes. Tudo é feito no hospital sem a necessidade de fazer exames intermediários ou de alguma especialidade fora da unidade. Na verdade, não se pode pagar nenhum exame para acelerar o processo do tratamento, pois corre-se o risco de perder o convênio com o SUS. A médica oncologista disse logo de cara: ‘Aqui é tudo na base do encaixe’. Tinha de ficar atento aos agendamentos, e nunca faltar em consultas e exames. Separei tudo em pastas por consultas, exames, medicações, hemogramas etc. Criei até uma planilha no Excel. Foram seis meses de tratamento. Fiz apenas quimioterapia, não tive retenção de líquidos e não fiz nenhuma cirurgia, exceto a biópsia. Ficava internado sete dias no hospital e 15 dias em casa. Muitas foram as intercorrências nesse período, mas graças a Deus fui superando cada uma. Concluído o ciclo das quimioterapias, na consulta de avaliação, em dezembro de 2016, recebi a melhor notícia: a doença havia regredido 100%. Hoje, faço apenas consultas de acompanhamento nesse mesmo hospital. Sem medicações, nem internações. Pude me afastar do trabalho pelo INSS e me dedicar exclusivamente ao tratamento. Muitos criticam o SUS, mas vi muita gente de convênio no hospital precisando entrar no SUS porque o plano não cobria algo.

 

“EM ALGUNS MOMENTOS FALTOU MEDICAÇÃO E TIVE DE COMPRÁ-LA PARA CONTINUAR O TRATAMENTO”

Mayse Sousa Figueiredo, 28 anos, tem LLA, e elogia a equipe médica que atende na rede pública

Fui diagnosticada com leucemia linfoide aguda, LLA, em 2014. Sofri muito na rede pública e na privada até obter o diagnóstico. Tinha inchaço nas pernas, dor forte no estômago. Percorri vários hospitais e ambulatórios. Cada médico falava uma coisa diferente. Me passaram até medicação para a garganta. Finalmente, uma amiga me levou para a Santa Casa e um médico residente me examinou, identificou algo no fígado e pediu um hemograma, que deu muita alteração. Resultado: fiquei internada durante uma semana fazendo exames até descobrir o que tinha. Com o diagnóstico de LLA, fui direto para o setor onde ficam pessoas com leucemia. Pela transferência imediata e as conversas com os médicos, vi que era uma doença rara e agressiva. O tratamento no SUS foi ótimo. Os médicos e enfermeiros são bons, experientes e trabalham com amor para salvar vidas. Mas em alguns momentos faltou medicação, e tive de arcar com um custo alto porque não conseguia em nenhuma farmácia. Fiz um ano de quimioterapia, 12 sessões de radioterapia, e tive complicações. Precisei fazer transplante de medula. O banco não tinha doador, mas fiz campanha na família e dos meus nove irmãos, oito tinham compatibilidade. Precisei ser transferida para o Hospital das Clínicas. Mandei um e-mail. Fiz todos os exames para internar, esperando vaga no leito. Demorou cinco meses para me chamarem para a consulta pré-transplante. Mas aí fizeram outro mielograma e descobriram que a doença estava ativa. Precisei voltar para a Santa Casa para fazer mais quimioterapia e zerar a medula. Assim aconteceu e, em dois meses, estava de volta ao Hospital das Clínicas. Lá passei em consulta, fiz novos exames e esperei mais um mês por uma vaga. Quando surgiu, me ligaram. Hoje, estou curada e recebo acompanhamento de dois em dois meses. Depois deve espaçar. Voltei ao trabalho e estou bem. Quero voltar a estudar.

 

“ESTAVA NO LUGAR CERTO, EM UM CENTRO ALTAMENTE AVANÇADO PARA O TRATAMENTO”

Vitorina de Melo, 62 anos, foi atendida no Hemocentro da Unicamp e está em remissão de linfoma de Hodgkin

Tudo aconteceu no final de 1997, quando comecei a ficar cansada e sem ânimo para realizar as coisas que gostava de fazer rotineiramente. Primeiro fui à minha ginecologista e depois de um check- -up geral foram detectados mais de oito linfonodos na axila esquerda e, urgentemente, fiz uma cirurgia para a biópsia. Diagnóstico: linfoma de Hodgkin. O mundo caiu. Tinha recebido convites de trabalho em outro estado e estava empolgada com essa mudança, com esse novo ciclo. Em lugar da alegria, veio o medo e a incerteza. A convite e indicação de meus parentes de Campinas (SP), fui fazer o tratamento no Hemocentro da Unicamp. Tudo feito integralmente pelo SUS, no Hospital das Clínicas da Unicamp. Fiz quimioterapia e radioterapia e, claro, tive muitos efeitos colaterais. Foi um momento muito complicado. Precisei deixar minha filha, Nina, então com dez anos de idade, minha família e amigos, e minha terra amada. Mas com o carinho e amor de meus parentes e com a constatação de que estava no lugar certo, em um centro altamente avançado para o tratamento, fui aceitando todo esse novo desafio que a vida tinha me imposto. Quero deixar registrado o trabalho de excelência que a Unicamp oferece. Os médicos e toda a equipe multidisciplinar estão sempre juntos com o paciente, numa relação muito próxima. Em meados de 1999, recebi alta parcial e voltei para Belém, indo a cada seis meses para Campinas, para a chamada “manutenção”. Voltei à vida normal, ingressei em uma nova área, a gastronomia, mas a recidiva veio com força total, no final de 2003. Tive de me reinventar novamente. A doença se instalou dessa vez na axila direita. O caminho foi o mesmo. Apesar do medo, já conhecia o caminho e as possibilidades. A Unicamp já era minha casa e eu já tinha intimidade e confiança nos meus médicos e na equipe multidisciplinar. Dessa vez o tratamento foi muito mais pesado, era preciso deter o linfoma. Essa segunda parte foi bem difícil, porque fiquei extremamente fraca, perdi mais de 10 quilos e os efeitos colaterais foram arrasadores. Pensei que não fosse suportar. Contudo, ao mesmo tempo que enfraquecia fisicamente, me fortalecia espiritual e emocionalmente. Ia adquirindo uma força interior extraordinária e prometi a mim mesma ir em busca da cura. Conheci a ABRALE e a Associação se transformou em uma grande aliada para o sucesso do meu tratamento. Minha vida deu um salto para melhor. Hoje estou curada e só tenho a agradecer a Deus, a todos pelo carinho e pelos novos caminhos que me apresentaram.

 

“FIZ TUDO PELO SUS, COM ATENDIMENTO DE EXCELÊNCIA”

Jean Pierre Seignier, 42 anos, tem mieloma múltiplo, fez TMO e passa bem

Tudo começou com uma fratura entre o fêmur e o quadril. Fui para a Ortopedia do SUS, lá fiz uma bateria de exames e um raio-X que mostrou que meu osso estava poroso. Pediram uma ressonância magnética. Foi quando acionaram o pessoal do Icesp (Instituto de Câncer de São Paulo). Fizeram uma biópsia e diagnosticaram mieloma múltiplo. Era dezembro de 2015. O médico disse que eu começaria uma quimioterapia via oral. E, em quatro dias, já estava fazendo o tratamento. Foram seis meses, não tive nenhum custo, todos os meus medicamentos foram doados. O mieloma reduziu 70% e me encaminharam para a quimioterapia na veia. Foi um momento desconfortável, fiquei 10 dias internado, perdi imunidade e fiquei isolado por alguns dias. Depois disso, fui para casa. Quando chegou o momento do transplante de medula óssea, tive que fazer no Hospital das Clínicas (da Faculdade de Medicina da USP). Durante 15 dias, ia sempre ao Hospital das Clínicas, precisava de vitaminas etc. Nesse período, tive acompanhamento odontológico e amparo de assistente social. Contei com uma ótima estrutura, tanto do HC quanto do Icesp, pessoas superatenciosas e atendimento rápido. Desde então, passei a ter acompanhamento trimestral, refazendo exames. Graças a Deus, sem recidiva. Agora chegou a hora de operar meu quadril. Estou passando por um processo de fortalecimento ósseo. Tudo acompanhado por uma equipe de fisiatria e ortopedia, com todos os exames necessários, incluindo cintilografia e ressonância magnética. Enquanto aguardo a cirurgia, estou com a minha mobilidade reduzida. Mas as coisas voltaram ao normal, faço minhas tarefas domésticas e pretendo retomar minha vida. Busquei e achei uma luz no fim do túnel. Estou saudável, peso normal, tenho bolsa guardada com minhas células-tronco (fiz transplante de medula óssea autólogo, por precaução). Caso tenha a doença novamente, não precisarei passar pelo processo de retirar células-tronco do meu corpo de novo. Fiz tudo pelo SUS, com atendimento de excelência. Claro que não tem uma hotelaria como os hospitais particulares de referência, mas o amparo que tive não sei se teria em outro sistema.

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