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Primeiro passo

  

Primeiro Passo
Por que é tão difícil diagnosticar o câncer precocemente no Brasil?

Por que é tão difícil diagnosticar o câncer precocemente no Brasil?

Por Tatiane Mota

Que o tratamento do câncer evoluiu – e muito – nos últimos tempos já não é mais segredo para ninguém. Hoje, os milhares de pacientes que enfrentam a doença no Brasil e no mundo conseguem obter resultados bastante positivos e até mesmo a cura. Mas para isso o diagnóstico precoce é fundamental. E aí os problemas começam…

Embora comprovado cientificamente que descobrir o câncer logo no início seja um importante diferencial no tratamento, no Brasil não é assim que vem acontecendo.

De acordo com estudo realizado pela Iterfarma e Quintiles IMS, intitulado Alternativas para Ampliação do Acesso à Saúde no Brasil, 45,9% dos pacientes foram diagnosticados em estágio avançado da doença no ano de 2016.

Para se ter uma noção de como a situação é grave, existem casos que chegam a demorar até mesmo anos – isso mesmo, ANOS – para que o paciente descubra ter um câncer. Um grande exemplo é a Livian Soares, 32 anos, que demorou mais de três anos para descobrir ser paciente de um linfoma de Hodgkin.

“Os médicos diziam que estava com anemia. Até transfusão de sangue eu fiz, mas nada de resolver meu problema. Depois de quase três anos, realizei diversos exames e com o PET Scan finalmente consegui obter o diagnóstico correto, eu tinha um câncer. E mesmo com o resultado de linfoma de Hodgkin, precisei esperar mais de três meses por uma vaga no SUS para o início do meu tratamento. Atualmente estou fazendo quimioterapia e acompanhamento médico”, conta Livian.

Mas, por que isso acontece?

Os motivos são diversos. O próprio câncer pode ser um complicador, a depender de sua localização, tipo, velocidade de crescimento e manifestação inicial. Há também a má qualificação de alguns profissionais de saúde, que acabam por desconhecer/confundir os sinais da doença e indicar tratamentos equivocados. Não podemos deixar de mencionar os problemas enfrentados na Saúde do país, em especial no sistema público, que por falta de dinheiro muitas vezes não consegue ofertar um serviço de qualidade, e nem nos esquecer que muitos brasileiros ainda não têm a informação correta sobre o câncer e seus diferentes sintomas, e por isso acabam procurando o médico tardiamente.

De acordo com a Dra. Maria Inez Gadelha, oncologista e chefe de gabinete da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, outro ponto importante é que nem toda neoplasia maligna pode ser detectada e diagnosticada precocemente.

“As ações de detecção precoce são diferenciadas em diagnóstico precoce e rastreamento. Diagnóstico precoce significa identificar o câncer o mais cedo possível em pessoas com ou sem sintomas. Já o rastreamento significa identificar o câncer em indivíduos assintomáticos, isto é, saudáveis de forma sistemática e periódica. Para isso, o sistema de saúde deverá contar com recursos materiais e humanos para o atendimento adequado, e em tempo hábil. Neste momento, as duas neoplasias malignas que cumprem os requisitos para rastreamento são o câncer do colo uterino e de mama nas mulheres assintomáticas, dos 50 aos 69 anos de idade”, explica Dra. Inez Gadelha.

Ainda de acordo com o estudo realizado pela Interfarma e Quintiles IMS, apenas 31% dos pacientes iniciaram o tratamento com quimioterapia em até 30 dias após o diagnóstico. Na radioterapia é ainda pior – apenas 10% dos tratamentos foram iniciados em até 30 dias.

E claro que este cenário influencia negativamente o bom prognóstico deste paciente. É o que diz o Dr. Celso Massumoto, coordenador da unidade de Transplantes de Medula Óssea do Hospital Nove de Julho e membro do Comitê Médico da Abrale.

“O sistema de saúde brasileiro é complexo, com excesso de pacientes e poucos serviços de apoio para agilizar o diagnóstico. Hoje, quando o paciente procura o SUS e precisa realizar biópsia de um linfonodo, por exemplo, provavelmente será encaminhado a outra unidade de saúde, até marcar uma nova consulta, para então conseguir realizar a biópsia. A conclusão do diagnóstico também não é fácil, pois demanda um laboratório de patologia bem estruturado, com rapidez na liberação dos laudos. E tudo isso custa caro”, diz o Dr. Celso.

Um serviço de suporte diagnóstico em câncer deve ser estruturado com recursos tecnológicos sofisticados, como a citometria de fluxo, técnicas moleculares e métodos de imagem. É o que diz Dra. Maria Mirtes Sales, médica patologista clínica, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica.

“Nos grandes centros brasileiros não acredito que isso seja um problema, mas quando pensamos no Brasil com suas dimensões continentais, nem sempre essa infraestrutura está presente. E mesmo nas grandes cidades o acesso ao sistema de Saúde não é homogêneo. Um grande exemplo são as evoluções que a medicina diagnóstica aplicada à Oncologia vem apresentando, com a aplicação clínica de métodos de sequenciamento genético de nova geração, que permitem não só diagnosticar precocemente o câncer, como também prever o risco do desenvolvimento de algumas neoplasias no futuro, ou definir qual tratamento seria o mais indicado para cada paciente, individualmente. Mas ainda estão restritas a alguns centros de excelência no Brasil e não estão acessíveis à maioria da população, por seus altos custos e por falta de cobertura por planos de saúde”, explica Dra. Maria Sales.

E os problemas do diagnóstico tardio não param por aí

Além da piora dos resultados com o tratamento, que já é bastante grave, para complicar ainda mais descobrir o câncer em estádios avançados também causa um grande impacto financeiro na Saúde nacional. É o que mostra estudo realizado pelo Observatório de Oncologia.

De acordo com os dados analisados, os gastos durante o tratamento, seja com medicamentos ou até mesmo períodos de internação mais longos, dentre outros, podem custar até dez vezes mais caro aos cofres públicos. Veja:

Linfoma de Hodgkin

Estadiamento I e II – R$ 8.510

Estadiamento III e IV – R$ 8.860 

Estadiamento V (avançado) R$ 11.535

Câncer de mama – pós-menopausa 

Estadiamento I – R$ 49.488

Estadiamento II – R$ 72.421

Estadiamento III (avançado)  – R$ 93.241

Câncer de cólon 

Estadiamento I – R$ 4.156

Estadiamento II – R$ 4.485

Estadiamento III (avançado) – R$ 76.735

*Valores por paciente tratado no SUS, em 2016.

Protocolos que salvam

Cartilha informativa pode ser alternativa para que profissionais da saúde saibam diagnosticar os sinais do câncer

No início de 2017, durante a comemoração do Dia Mundial do Câncer, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (INCA) lançaram o primeiro Protocolo de Diagnóstico Precoce do Câncer Pediátrico.

O objetivo é auxiliar profissionais da saúde de todo o país a conduzir casos suspeitos e confirmados dentro de uma linha de cuidado, por meio de informações que vão desde os primeiros sinais e sintomas apresentados pelas crianças com câncer, até os tipos da doença e os tratamentos aplicados para cada uma delas.

Com este guia, será possível ter maior segurança em identificar se a criança tem suspeita da doença, e assim encaminhá-la o mais rápido possível ao especialista.

“Cartilhas ou protocolos de diagnóstico como este com certeza podem auxiliar na melhora do diagnóstico precoce dos sinais e sintomas que podem representar um câncer. Entretanto, ainda acho que o gargalo do problema reside nos serviços de apoio, como os laboratórios de anatomia patológica, que devem ser mais ágeis e com isso acelerar o início do tratamento oncológico”, disse Dr. Celso.

Além disso, o Grupo de Trabalho de Diagnóstico do Câncer, parte do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, também vem trabalhando para que esta situação mude.

Dentre as propostas estão o monitoramento do tempo de espera entre o diagnóstico e início do tratamento oncológico, por meio do Sistema de Informação do Registro Hospitalar e a criação de centros regionais de diagnóstico precoce do câncer, por meio de articulação com a Câmara de Deputados e da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica.

Para mais informações, acesse a Declaração para Melhoria da Atenção ao Câncer no Brasil, no www.tjcc.com.br

Descobrindo o câncer

Conheça o passo a passo para o diagnóstico CORRETO da doença

Embora alguns cânceres sejam silenciosos e demorem para apresentar seus sinais – e por isso a importância de rastrear, por meio de exames de rotina – na maior parte dos casos a doença “dá as caras” com mudanças evidentes no corpo, como dores constantes, surgimento de caroços, cansaço excessivo, manchas roxas sem motivo aparente, falta de ar, febre…

E aí o natural é que o paciente procure por um médico, geralmente um clínico geral. Ao falar sobre o que está sentindo, é importante que este especialista procure investigar o problema, pedindo exames ou até mesmo já encaminhando prontamente para o oncologista.

Mas para que o câncer realmente seja detectado, salvo raríssimas exceções, será necessária a retirada de um fragmento da lesão, a chamada biópsia. Posteriormente, será feita uma análise ao microscópio, procedimento chamado tecnicamente de exame anatomopatológico.

A depender do tipo do câncer, será aplicado um ou mais exames para sua constatação: exames de sangue, urina, medula óssea, radiografia, ultrassonografia, tomografia computadorizada, ressonância nuclear magnética, endoscopia, tomografia computadorizada por emissão de pósitrons (PET-CT), entre outros…

Com o câncer identificado e biópsia feita, o material será encaminhado para um laboratório de patologia. E será o patologista quem dará a palavra final. Mas se por alguma dificuldade ele não conseguir descobrir em que órgão as células malignas se originaram, ou até mesmo qual o subtipo de determinado câncer, pode haver a necessidade utilizar certas ferramentas, chamadas de “colorações especiais”. São elas os exames de imuno-histoquímico e os testes moleculares. Afinal, a escolha do tratamento ideal depende dessa resposta.

E a rapidez e eficiência em todo esse processo será de grande importância para a vida deste paciente.

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