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Você e seu médico falam a mesma língua?

Imagem Paciente Medico
O diálogo entre médico e paciente se constrói com atenção, paciência e linguagem clara. Dele pode depender o sucesso do tratamento

O diálogo entre médico e paciente se constrói com atenção, paciência e linguagem clara. Dele pode depender o sucesso do tratamento

Por Edna Vairoletti

“Medicinês” e “mediques” são algumas das expressões usadas para se referir à linguagem utilizada pelos médicos, com muitos jargões e termos científicos que podem causar estranheza aos pacientes. A qualidade da comunicação entre eles pode até mesmo ter reflexos sobre a adesão e o sucesso do tratamento.

Para assegurar a compreensão do que se diz e do que se ouve, a sintonia desse diálogo deveria ser imediata. Mas nem sempre é assim. A forma como se estabelece a relação médico-paciente mostra-se fundamental desde a primeira consulta. Estamos falando da formação de um vínculo, para o qual sentimentos como confiança e segurança são importantíssimos.

Segundo estudos, de 60% a 80% dos diagnósticos e decisões sobre o tratamento se dão justamente durante a consulta. Portanto, é o momento em que a troca de informações deve ser clara e fluir.

Se o paciente tem direito de saber o que se passa com sua saúde, o médico tem o dever de transmitir essa informação. O dr. Simônides Bacelar, médico professor colaborador da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Projeto Linguagem Médica Melhor, mantido na instituição, observa que essa premissa faz parte do código de ética médica. Tal código estabelece que é vedado ao médico deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento – salvo quando a comunicação direta possa provocar dano ao paciente. Nesse caso, cabe fazer a comunicação ao representante legal. “Porém, se o paciente entender mal ou não entender nada, a norma ética ficará desatendida e a atuação profissional vai falhar. Às vezes, com resultados letais”, alerta.

As diferentes linguagens

Para o Dr. Galeno Alvarenga, formado em Medicina e doutor em filosofia, a terminologia médica fornece um bom exemplo das múltiplas funções que a linguagem tem a desempenhar. “Por um lado, ela é técnica, permitindo aos médicos ao mesmo tempo compreender e explicar a doença. Mas também é usada como instrumento de comunicação entre médico às pessoas e, algumas vezes, a não comunicação entre médico e paciente resulta em consequências sérias”.

Alguns dos ruídos nesse diálogo ocorrem em razão do jargão médico. “Seu uso pode causar incompreensões não apenas por parte do paciente, mas até mesmo entre médicos de especialidades diferentes ou da mesma área que atuem em regiões distintas. As gírias médicas, que soam como termos técnicos, não são adequadas. Vale frisar que as gírias do paciente têm de ser compreendidas pelo médico”, comenta o Dr. Simônides. Para alguns estudiosos, o jargão tem a função de desencorajar o paciente a fazer perguntas, o que pode conduzir uma alienação quanto ao tratamento e a sentimentos de abandono.

As expressões faciais e os gestos que deixam transparecer dúvida, medo ou preocupação podem sinalizar a não compreensão do que foi dito, e o profissional deve estar atento a esses detalhes. “Na consulta, o paciente busca o termo certo para dizer o que sente. Ele quer informar não só a natureza, mas a intensidade do que está sentindo. Procura mostrar o ponto exato da dor, quando ela vem ou desaparece, aumenta ou diminui. Outras vezes, tenta explicar a doença fazendo uso de metáforas ou de imagens semelhantes”, comenta o Dr. Simônides.

A linguagem médica, embora procure ser neutra e objetiva, vem sempre emaranhada em preceitos sociais, culturais, econômicos e religiosos, e acompanhada de prescrições e aspirações terapêuticas e autoritárias.

Esse tom incisivo na consulta é apontado como uma das causas da má comunicação, pois pode provocar certa timidez no paciente, que se sente acuado e não consegue se expressar ou tirar dúvidas. E mais uma vez o diálogo não flui.

Simplicidade com conteúdo  

Nessa comunicação em que a expectativa não é apenas ter informações, mas acalmar a ansiedade diante de um diagnóstico que nem sempre é simples, a flexibilidade do médico pode ser fundamental. As pesquisas mostram que o profissional que procura fornecer instruções mais detalhadas ao paciente possui maior sensibilidade às questões levantadas pelo paciente, compreende melhor o que ele sente e o induz a tornar-se mais colaborativo com o tratamento. Então, ao invés de falar “a leucopenia vai acarretar sepse”, pode-se dizer “seu sangue está um pouco fraco e pode não reagir contra as infecções”.

Compreensão mútua

E como o paciente deve se comportar quando se depara com um médico que não abre mão dos termos complicados? Ele precisa ser claro, dizer que não entendeu o que foi explicado e pedir para que o médico fale de maneira mais “fácil”, para que nenhuma dúvida reste.

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