Estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) aponta contrastes regionais no perfil da doença e…
Escassez de dados sobre mieloma múltiplo prejudica elaboração de políticas públicas
Pacientes têm dificuldade para chegar ao diagnóstico e passam por vários médicos até o resultado final
“Março borgonha” é o mês de conscientização do mieloma múltiplo, câncer que acomete, na maior parte dos casos, pessoas acima dos 50 anos, mas que também pode atingir adultos jovens.
O mieloma múltiplo se desenvolve quando os plasmócitos, tipo de células de defesa, tornam-se defeituosos e se acumulam na medula óssea. Eles formam os plasmocitomas, que são considerados um tumor maligno, por se tratar de um aglomerado de células doentes que atrapalham o bom funcionamento das células saudáveis.
Para saber como a doença se apresenta no Brasil, a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) entende que é importante estar em contato com pacientes e, por meio de pesquisas, realiza as chamadas Jornadas de Pacientes Abrale.
Embora seja uma doença rara, saber como o mieloma se desenvolve na população é fator essencial para entender como vem acontecendo o diagnóstico e tratamento no país. Mas, infelizmente, os órgãos de saúde brasileiros ainda não fazem esse levantamento.
No Instituto Nacional de Câncer (Inca), por exemplo, não há estatísticas para a doença. Segundo dados internacionais, o mieloma atinge quatro a cada cem mil pessoas, o que representaria cerca de 8.000 casos anuais por aqui.
Na Jornada do Mieloma Múltiplo, iniciada em 2021 com 51 pacientes desse tipo de câncer e ainda em andamento, alguns dados chamaram atenção: 41,2% dos entrevistados tiveram dificuldade para chegar ao diagnóstico e 76,2% passaram por vários médicos até chegar ao resultado final. Para 25% dos pacientes, o tratamento foi iniciado somente dois meses após o diagnóstico.
Felizmente, há novidades terapêuticas com excelentes respostas em pacientes de primeira linha ou em recidiva —quando o primeiro tratamento ou a doença persistem.
Na Jornada do Mieloma Mútliplo foi identificado que as barreiras no acesso via sistemas público e privado de saúde prejudicam os pacientes ao privá-los dos melhores resultados no tratamento.
Hoje, alguns dos principais imunoterápicos existentes não estão disponíveis via planos de saúde e Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, o paciente acaba por ter possibilidades reduzidas de remissão completa, além de gerar maior custo ao sistema.
A necessidade de mudanças é urgente. Órgãos como a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) precisam dar maior atenção para as novas opções terapêuticas de combate ao mieloma múltiplo e outros tipos de câncer.
Empresas precisam ampliar o diálogo com o poder público e avaliar oportunidades de melhorar os custos para garantir amplo acesso dos produtos no país.
A Abrale trabalha incansavelmente para que as políticas públicas brasileiras em saúde sejam prioridade. Além das pesquisas com pacientes, nos últimos anos também divulgamos inúmeras consultas públicas para a inclusão de novos medicamentos no rol da ANS e da Conitec, além de reuniões com autoridades para que os pacientes estejam sempre no centro das atenções. Afinal, o câncer não espera.
Acompanhe o trabalho da organização e junte-se a essa causa no www.abrale.org.br.
Fonte: Folha de S. Paulo

