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Entre a compra emergencial e a assistência na ponta: os desafios da ciclofosfamida no SUS

O desabastecimento da ciclofosfamida no Brasil expôs, fragilidades históricas relacionadas à organização da assistência oncológica e hematológica no Sistema Único de Saúde (SUS).

A situação ganhou dimensão crítica ao longo dos últimos meses em razão da interrupção da produção global do medicamento e das dificuldades técnicas enfrentadas pelo único fornecedor nacional, comprometendo diretamente protocolos terapêuticos essenciais e potencialmente curativos.

A ciclofosfamida possui papel central em diversos tratamentos oncológicos e hematológicos, sendo também indispensável para a realização dos transplantes haploidênticos, modalidade que representa parcela significativa dos transplantes de medula óssea (TMO) realizados no país.

Sua indisponibilidade impactou diretamente a continuidade da assistência, provocando adiamentos de procedimentos, reorganização de protocolos terapêuticos e aumento da pressão sobre os serviços de saúde.

Diante desse cenário, entidades médicas e organizações da sociedade civil vêm alertando o Ministério da Saúde (MS) sobre os impactos do desabastecimento. Em abril de 2026, a Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), a Associação de Medula Óssea (AMEO), a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e a Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) encaminharam ofício conjunto às autoridades competentes solicitando providências urgentes e destacando os riscos assistenciais decorrentes da escassez do medicamento.

Em resposta à crise, o Ministério publicou, em abril a Nota Técnica nº 110/2026, apresentando as medidas emergenciais adotadas para mitigar os impactos do desabastecimento, entre elas, destacaram-se a aquisição internacional da ciclofosfamida por meio do Fundo Estratégico da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o monitoramento contínuo do abastecimento em articulação com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), secretarias estaduais e indústria farmacêutica, além da distribuição emergencial do medicamento.

Segundo o MS, foram adquiridas aproximadamente 140 mil unidades da ciclofosfamida, sendo o primeiro lote, composto por 7 mil ampolas, destinado a centros prioritários, incluindo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), à época, a expectativa era de normalização gradual do abastecimento ao longo dos meses seguintes.

Apesar desses esforços, relatos de diversos serviços de saúde indicam que a distribuição não alcançou plenamente a ponta assistencial. Essa preocupação foi amplamente debatida em reunião realizada em maio entre representantes do Ministério, entidades médicas e organizações da sociedade civil.

Durante o encontro, a Coordenação-Geral de Assistência Farmacêutica informou que a planilha de distribuição da ciclofosfamida havia sido encaminhada às Secretarias Estaduais de Saúde e aos hospitais do SUS em 17 de abril, com base nas demandas informadas pela rede.

Entretanto, as entidades relataram que diversos serviços ainda não haviam recebido o medicamento ou não possuíam informações claras sobre os quantitativos destinados, os cronogramas de entrega e os fluxos de distribuição.

Na ocasião, representantes da sociedade civil também solicitaram maior transparência sobre os estudos de demanda utilizados para orientar a compra internacional e a estratégia de distribuição, além de questionarem como estava sendo realizado o monitoramento da chegada efetiva do medicamento aos hospitais. Destacou-se a necessidade de acompanhamento mais próximo junto às Secretarias Estaduais de Saúde, diante dos relatos de interrupção ou limitação de tratamentos em diferentes regiões do país.

O tema voltou a ser discutido na audiência pública promovida pela Abrale na Câmara dos Deputados, em maio, com apoio da Comissão de Prevenção e Combate ao Câncer. Nessa oportunidade, especialistas, gestores e representantes do Ministério da Saúde reconheceram que o desabastecimento da ciclofosfamida não representa apenas um problema pontual de aquisição do medicamento, mas evidencia desafios relacionados ao planejamento, à logística e à coordenação da assistência farmacêutica no SUS.

Mais recentemente, a Nota Técnica nº 150/2026 atualizou o cenário nacional de abastecimento e informou que, graças a esforços regulatórios, logísticos e institucionais, foi possível antecipar a disponibilização de aproximadamente 56 mil unidades da ciclofosfamida injetável de 1g em maio.

Embora a medida tenha contribuído para reduzir o risco assistencial imediato, o próprio Ministério ressalta que ela não representa a normalização do abastecimento, uma vez que o quantitativo permanece insuficiente diante da demanda reprimida e da necessidade de recomposição gradual dos estoques.

O documento orienta gestores e serviços de saúde a manterem as medidas de contingência já adotadas, incluindo monitoramento rigoroso dos estoques, controle da demanda reprimida e uso racional do medicamento, além de estabelecer prioridades assistenciais para situações de maior criticidade clínica e reforçar a necessidade de avaliação individualizada dos casos enquanto perdurar o cenário de restrição de oferta.

A Nota Técnica informa ainda que o Ministério mantém estoque estratégico adquirido por compra internacional centralizada e continua atuando em articulação com a Anvisa, gestores estaduais, sociedades científicas e a empresa detentora do registro do medicamento. Contudo, reconhece-se que a aquisição centralizada, isoladamente, não é capaz de suprir imediatamente toda a demanda nacional.

Por fim, a normalização do abastecimento não deve ocorrer no curto prazo, já que a previsão é de chegada de novos lotes apenas a partir de agosto, com expectativa de normalização mais ampla do cenário somente no último trimestre do ano.

Diante desse contexto, permanece fundamental acompanhar como a distribuição da ciclofosfamida está ocorrendo na ponta assistencial e quais impactos ainda vêm sendo observados em diferentes regiões do país.

Considerando que o Ministério da Saúde vem adotando medidas emergenciais para mitigar os efeitos do desabastecimento, torna-se importante compreender se o medicamento está chegando de forma efetiva aos locais de atendimento, em quais quantitativos e se o abastecimento atual tem sido suficiente para atender às necessidades assistenciais. Essas informações poderão contribuir para o monitoramento da efetividade das medidas adotadas e para o aprimoramento do diálogo institucional voltado à garantia do acesso contínuo ao tratamento.

Área de Políticas Públicas e Advocacy da Abrale e Movimento Todos Juntos Contra o Câncer

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